Conflito na empresa nem sempre é o problema: veja como saber identificar

Juliette Corvain Por Juliette Corvain 14 Visualizações
Haroldo Augusto Filho

Empresas investem tempo e dinheiro para evitar qualquer atrito interno, como se discordância fosse sempre sinônimo de crise. Essa lógica erra o alvo: o problema raramente é o conflito em si, e sim o que a organização faz com ele depois que ele aparece.

Haroldo Augusto Filho, executivo da Fource Consultoria com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, considera que essa confusão custa caro às empresas. Decisões deixam de ser questionadas, divergências reais viram desconforto silencioso, e o que poderia ser corrigido cedo só aparece quando o dano já é maior.

Por que a ideia de que todo conflito é ruim está incompleta?

A literatura sobre gestão de conflitos organizacionais distingue há décadas dois tipos de disputa dentro de uma empresa. Haroldo Augusto Filho, nesse contexto, menciona que uma delas melhora a qualidade das decisões, a outra corrói relações e trava processos. Tratar as duas como se fossem a mesma coisa é o erro mais comum em ambientes corporativos.

Suprimir toda divergência para manter a aparência de harmonia tem um custo que raramente aparece em relatório algum: decisões piores, tomadas sem o contraponto que só um conflito bem conduzido é capaz de oferecer. A harmonia artificial custa caro, só que de forma invisível.

O que diferencia um conflito funcional de um disfuncional?

O conflito funcional gira em torno de ideias, critérios e prioridades. Duas áreas discordam sobre qual investimento traz mais retorno, e essa discordância obriga ambas a defender a posição com dados melhores. O resultado tende a ser uma decisão mais robusta do que se ninguém tivesse questionado nada.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Já o conflito disfuncional migra da questão para a pessoa. Deixa de ser sobre qual caminho é melhor e passa a ser sobre quem está certo, quem tem mais poder ou quem vai levar a culpa. Nesse ponto, a discussão para de gerar valor e começa a consumir energia da equipe, mesmo quando ninguém percebe a mudança enquanto ela acontece.

Como um conflito bem conduzido evita problemas maiores depois?

Um conselho de administração que debate abertamente os riscos de uma aquisição, por exemplo, chega a decisões mais sólidas do que um conselho em que ninguém contesta a diretoria. A tensão, nesse caso, funciona como um filtro, pois obriga a proposta a resistir a perguntas difíceis antes de virar compromisso.

O problema não é o atrito que aparece nessas discussões, é a ausência de um critério para conduzi-las. Sem esse critério, qualquer conflito, funcional ou não, tende a escalar da mesma forma e a terminar do mesmo jeito ruim. Haroldo Augusto Filho destaca que o critério, mais do que a discussão em si, costuma ser o que determina se o conflito termina em solução ou em desgaste.

Quando o conflito deixa de ser produtivo e vira desgaste?

O sinal mais claro dessa virada é a repetição sem avanço: a mesma disputa reaparece em reuniões diferentes, sem que nenhuma posição mude e sem que nenhum critério novo entre na conversa. Isso indica que o conflito parou de discutir o problema e passou a discutir status.

Outro sinal é a queda na qualidade da comunicação entre as partes envolvidas. Quando alguém deixa de expor uma discordância para evitar desgaste, a empresa perde justamente o contraponto que tornava aquele conflito útil. Para Haroldo Augusto Filho, esse recuo silencioso costuma anteceder problemas maiores, porque a divergência não desaparece, apenas deixa de ser discutida abertamente.

O verdadeiro risco não é o conflito, é o silêncio que o substitui

Empresas que aprendem a distinguir os dois tipos de conflito não se tornam ambientes mais tensos, tornam-se ambientes mais honestos. A disputa por ideias continua existindo, só que dentro de um processo capaz de extrair valor dela antes que vire desgaste.

Em síntese, Haroldo Augusto Filho aponta que o verdadeiro indicador de saúde organizacional não é a ausência de divergência, é a capacidade de conduzi-la sem deixar que ela se transforme em ruído. Nota-se, portanto, que uma empresa silenciosa não é necessariamente uma empresa alinhada, muitas vezes é apenas uma empresa que parou de discutir o que importa.

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