Musicoterapia e demência: o que acontece quando a memória musical sobrevive ao esquecimento de tudo o mais?

Diego Rodríguez Velázquez Por Diego Rodríguez Velázquez 8 Visualizações
Yuri Silva Portela

À luz do que frisa Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, entre todas as capacidades que a demência compromete progressivamente, uma delas resiste com surpreendente tenacidade: a memória musical. Pacientes que não reconhecem o rosto dos filhos, que não lembram seus próprios nomes, que perderam a capacidade de narrar sua história, frequentemente conseguem cantar com precisão músicas que ouviram décadas atrás. 

Esse fenômeno, ao mesmo tempo desconcertante e revelador, está no centro de uma abordagem terapêutica que a ciência começa a levar a sério. Ao longo deste conteúdo, veremos como a musicoterapia se consolidou como intervenção legítima no cuidado à demência e o que ela pode oferecer ao idoso e à sua família. 

Por que a música sobrevive quando tudo mais se apaga?

A memória musical é processada por circuitos cerebrais diferentes daqueles responsáveis pela memória episódica e semântica, que são os primeiros a ser comprometidos pela doença de Alzheimer e por outras formas de demência. O córtex auditivo, o cerebelo e os gânglios da base, estruturas envolvidas no processamento musical, tendem a ser preservados por mais tempo no curso da doença, o que explica por que a resposta à música frequentemente persiste muito além do que se esperaria diante do grau de comprometimento cognitivo geral.

Como observa Yuri Silva Portela, esse dado neurológico tem implicações práticas imediatas. Se determinadas vias cerebrais ainda funcionam, elas podem ser utilizadas como canais de acesso ao paciente, para reduzir a agitação, estimular memórias autobiográficas, facilitar a comunicação e promover momentos de presença e conexão que o declínio cognitivo progressivo vai tornando cada vez mais raros e preciosos.

Evidências clínicas sobre os efeitos da musicoterapia

A literatura científica sobre musicoterapia e demência acumulou nas últimas duas décadas evidências consistentes sobre seus efeitos. Nesse sentido, estudos controlados demonstram redução significativa de agitação psicomotora, um dos sintomas mais desafiadores para cuidadores e profissionais, após sessões regulares de musicoterapia. Há também evidências de melhora temporária da memória autobiográfica, redução do uso de medicamentos antipsicóticos e melhora do humor e da qualidade do sono em pacientes submetidos a intervenções musicais estruturadas.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na concepção de Yuri Silva Portela, o que torna esses resultados particularmente relevantes é o perfil de segurança da intervenção. Diferentemente dos antipsicóticos frequentemente utilizados para controlar agitação em pacientes com demência, que carregam riscos cardiovasculares e de sedação excessiva, a musicoterapia não produz efeitos adversos e pode ser integrada à rotina de cuidado sem substituir, mas complementando, o tratamento farmacológico quando necessário.

A família como parte da intervenção musical

Um aspecto frequentemente subestimado da musicoterapia em contextos de demência é seu impacto sobre os cuidadores familiares. Quando um familiar observa o paciente responder emocionalmente a uma música, cantar, mover o corpo ou demonstrar reconhecimento durante uma sessão, experimenta um momento de reconexão com a pessoa que conheceu antes da doença. Esse efeito, documentado em estudos qualitativos, tem impacto real sobre o sofrimento do cuidador e sobre a qualidade do vínculo que sustenta o cuidado cotidiano.

Conforme ressalta o doutor Yuri Silva Portela, incluir a família na construção do repertório musical utilizado nas sessões, músicas que fizeram parte de momentos significativos da vida do paciente, potencializa os efeitos da intervenção e transforma a musicoterapia em um espaço de cuidado compartilhado que beneficia simultaneamente o idoso e quem o cuida.

Implementação prática: do hospital ao domicílio

A musicoterapia não exige equipamentos sofisticados nem estruturas hospitalares complexas para ser implementada. Afinal de contas, playlists personalizadas reproduzidas em dispositivos simples, sessões conduzidas por musicoterapeutas em centros de convivência ou em domicílio, e orientação aos cuidadores sobre como utilizar a música no cotidiano são formas acessíveis de incorporar essa abordagem ao cuidado geriátrico em diferentes contextos.

No fim, como retrata o doutor Yuri Silva Portela, democratizar o acesso à musicoterapia é uma questão de vontade clínica e institucional. Em regiões onde o acesso a especialistas é limitado, capacitar cuidadores e agentes comunitários para utilizar a música de forma intencional no cuidado ao idoso com demência pode ser uma das intervenções de maior impacto e menor custo disponíveis para melhorar a qualidade de vida dessa população.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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