Quais são os benefícios de adotar práticas de governança desde o início na empresa familiar?

Diego Rodríguez Velázquez Por Diego Rodríguez Velázquez 8 Visualizações
Victor Maciel

Victor Maciel, advogado tributarista e fundador do Victor Maciel Advogados, esclarece que existe uma crença silenciosa nas empresas familiares brasileiras: governança é assunto para multinacional, conselho de administração e relatório encadernado. Enquanto o negócio é da família, resolve-se tudo no almoço de domingo. A crença parece inofensiva, porém, na prática, ela cobra caro e cobra cedo.

A governança corporativa não é um conjunto de formalidades para empresas grandes, mas um método para separar o que é da empresa do que é da família e dar previsibilidade às decisões. Continue a leitura e veja que é justamente nas sociedades familiares, em que afeto e negócio dividem a mesma mesa, que essa separação faz mais diferença.

De onde vem o mito da empresa grande?

A imagem pública da governança foi construída em torno de companhias de capital aberto: conselhos, comitês de auditoria, códigos extensos. Quem dirige uma empresa familiar olha para esse aparato e conclui, com alguma razão, que nada daquilo cabe no seu tamanho. O erro está em confundir o instrumento com o princípio. O aparato é dispensável; o princípio, não.

E o princípio é simples: decisão importante precisa de critério conhecido, e patrimônio da empresa não se confunde com o bolso dos sócios. Victor Maciel aponta que a resistência a formalizar regras entre parentes raramente é racional; ela nasce da sensação de que o contrato seria sinal de desconfiança, quando costuma ser o contrário: é o que preserva a confiança quando o dinheiro aperta.

O custo invisível de decidir no improviso

Dois irmãos dividem a sociedade que herdaram do pai. Um quer reinvestir o lucro; o outro precisa retirar mais para projetos pessoais. Sem regra prévia de distribuição, cada conversa vira negociação, cada negociação vira desgaste, e a decisão de investimento fica adiada por meses. Nenhum dos dois está errado. O que está errado é a ausência de um combinado feito antes de o conflito existir, e esse custo não aparece em relatório algum.

A informalidade cobra em outras frentes. Contas misturadas impedem saber se a operação é de fato lucrativa; a falta de registros organizados encarece crédito e complica qualquer discussão societária futura; a sucessão, tema que toda família adia, tende a virar disputa quando chega sem regra escrita. Nesse quesito, Victor Maciel, advogado e fundador do Victor Maciel Advogados, retrata esse conjunto como um passivo de organização: ele não consta do balanço, mas define o teto de crescimento do negócio.

Victor Maciel
Victor Maciel

Governança corporativa que cabe no tamanho do negócio

Victor Maciel considera que adaptar não significa diluir. Um acordo de sócios que defina distribuição de lucros, regras de entrada e saída e critérios para decisões relevantes já resolve boa parte dos conflitos antes que nasçam. Separar as contas pessoais das contas da empresa, com remuneração definida para quem trabalha nela, elimina a fonte mais comum de ruído entre familiares.

Empresa familiar pequena precisa de governança corporativa? 

Precisa, em versão proporcional: regras claras entre sócios, contas separadas e um rito simples de decisão. O que muda com o porte é a sofisticação dos instrumentos, não a necessidade deles. Essa versão proporcional evolui junto com o negócio. Reuniões periódicas com pauta e registro criam memória das decisões; papéis definidos evitam que todo familiar opine sobre tudo; informações financeiras organizadas permitem decidir com base em números, não em impressão. Victor Maciel pontua que o momento certo para dar esse passo é antes da crise, porque regra criada no meio do conflito já nasce contaminada por ele.

Organizar não é burocratizar, é durar

O mito da governança como luxo de empresa grande inverte a lógica do problema, já que companhias grandes sobrevivem a certa dose de desorganização porque têm gordura para queimar; a empresa familiar, em geral, não tem. Cada decisão travada, cada conta misturada e cada sucessão mal resolvida consome uma margem que já era estreita. 

Organizar cedo não é antecipar burocracia: é comprar tempo de vida para o negócio. Logo, Victor Maciel resume que a questão que importa para o empresário familiar não é se a empresa cresceu o suficiente para merecer regras. É saber quanto do que já foi construído permanece em risco enquanto as decisões dependerem apenas do improviso.

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